Os clássicos fora de lugar: viagens e outros périplos na história da literatura

Marcela Oliveira, Marco Lucchesi, Helena Martins, Silviano Santiago e Miguel Conde.

Consultoria de Miguel Conde – O curso “Os clássicos fora de lugar: Viagens e outros périplos na história da literatura” propôs uma série de quatro encontros em que obras fundamentais do cânone literário foram abordadas com olhar renovado por alguns de seus principais intérpretes brasileiros, em diálogo com questões urgentes do mundo atual. A metáfora da leitura como um tipo de viagem sugere que a literatura pode nos levar para além da nossa vida cotidiana, tornando o leitor um tipo de explorador e de estrangeiro. De que maneira o tema do deslocamento e do contato com o desconhecido que daí resulta aparece na obra de autores clássicos como Homero, Dante, Virginia Woolf e Guimarães Rosa? Acompanhando os périplos dos personagens mais conhecidos desses autores, veremos como a relação com o outro, a diferença, o estrangeiro, é reformulada em diferentes momentos do cânone ocidental. Em que medida essa exploração de outros mundos por meio da leitura pode transformar nossa percepção sobre a vida que levamos?

Artista convidada: Fernanda Montello

22 de novembro (aula 1)

Odisseia, Homero

Vimos nesta aula como a viagem do Ulisses de Homero combina aventura e nostalgia, colocando em jogo a fixidez de sua identidade no encontro com seres míticos que lhe oferecem diferenças radicais, como as sereias que seduzem e ameaçam. Nós, leitores, fomos convocados a viajar junto com esse herói que é também o narrador de suas descobertas por terras estranhas e pelo vasto mar.

29 de novembro (aula 2)

Divina Comédia, Dante

Guiado pelo poeta romano Virgílio e, mais tarde, por sua amada Beatriz, Dante percorre em seu livro mais importante o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Seu deslocamento por essas esferas revela aspectos da visão de mundo medieval, mas afirma de maneira mais decisiva uma poética que será fundadora da literatura moderna. A modernidade absoluta da Divina comédia foi discutida nessa aula, tomando o livro à maneira de uma escrita para uma orquestra de jazz. Vimos como o percurso de Dante constitui a mais alta celebração da poesia, forjando em seu poema uma nova língua e uma nova música reunidas para alcançar alturas nunca dantes navegadas.

06 de dezembro (aula 3)

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

O famoso romance de Virginia Woolf percorre um dia na vida de Clarissa Dalloway, iniciando-se com um périplo pelas ruas de uma Londres recém-saída da Primeira Guerra. A aula explorou o modo fascinante como os movimentos da personagem entre a casa e a cidade ajudam a construir um fluxo de consciência que é também um fluxo de perspectivas, uma força benigna de perturbação de sensibilidades calcificadas, um abalo nas formas protocolares de viver.

13 de dezembro (aula 4)

Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa

No Brasil dos anos 1950, tomado pelos sonhos de desenvolvimento industrial e modernização propagados pelo governo JK, o livro que viria a ser reconhecido como a obra-prima de Guimarães Rosa parece um corpo estranho, fora de sincronia com as aspirações do país. Em vez do salto unívoco para o futuro prometido pelo bordão político “50 anos em 5”, a travessia de Riobaldo, Diadorim e seus companheiros pelo espaço misterioso do sertão instaura um desconcertante embaralhamento de tempos, uma alegoria da brasilidade, que constitui desde então um desafio para seus intérpretes.